Carta aos investidores – 2º trimestre 2023

Caros cotistas,

O segundo trimestre de 2023 foi marcado por surpresas tanto no mercado local quanto no externo. As empresas de tecnologia foram o destaque no mercado de ações, impulsionadas pela expectativa de que a Inteligência Artificial possa trazer uma revolução não apenas para o setor como para toda a economia.

No Brasil, observamos a consolidação de uma desinflação, que proporcionará um ambiente favorável para um corte de juros. O governo, embora tenha sempre discursado na direção contrária ao mercado, foi contido por sua própria ineficácia e pela ação do Congresso.

Nos Estados Unidos, a economia continuou em expansão, apesar de alguns sinais de desaceleração, especialmente na indústria. O mercado de trabalho segue aquecido mesmo com a taxa de juros próxima de 5% ao ano. Apesar de alguns indícios de melhora da inflação, o Federal Reserve (banco central americano), por sua vez, continua sinalizando um aperto monetário adicional.

A melhora na perspectiva econômica ainda traz muitas dúvidas, os indicadores antecedentes apontam para uma desaceleração e muitos atribuem à resiliência do mercado americano fruto dos incentivos fiscais pós-Covid e à ajuda do governo ao balanço das famílias, que ainda segue forte, apesar do choque inflacionário. A desaceleração da economia ainda segue como o principal risco a ser monitorado pelos mercados nos Estados Unidos.

Vale destacar também a concentração da alta do mercado de ações nas empresas de tecnologia, que estão na vanguarda da revolução da Inteligência Artificial. Isso tem aumentado não apenas suas perspectivas de lucro, mas também seus múltiplos. Por outro lado, as empresas da economia tradicional, que são mais endividadas, não tiveram um desempenho tão robusto.

Já na China observamos uma mudança significativa de perspectiva de longo prazo. A decepção com o crescimento da economia após a reabertura pós-pandemia levantou uma série de questões estruturais, tal como o início do processo de redução da população chinesa, já previsto para este ano.

Outra questão relevante é o alto endividamento do país, resultado de sucessivos estímulos e investimentos em infraestrutura, gerando uma grande bolha no mercado imobiliário, já em curso de desalavancagem. Além disso, a tensão crescente entre a China e os países ocidentais tem gerado impactos consideráveis nos mercados.

Um tema bastante recorrente aos investidores é a migração dos investimentos, antes direcionados à China, para países mais próximos ou mais alinhados geopoliticamente, o “near-shoring”. O México, por exemplo, já começa a sentir os benefícios desse tema. A redução nas exportações na China e no investimento estrangeiro direto já começaram a ser percebidos.

A fraqueza da economia chinesa foi preponderante para a queda expressiva de diversas commodities, contribuindo para o cenário de desinflação globalmente. Neste contexto, o Brasil apresenta condições favoráveis para iniciarmos um ciclo de queda de juros a partir de agosto.

A política monetária do Federal Reserve será um importante vetor na direção dos mercados, uma vez que ela ainda gera grande incerteza entre os agentes. Ainda que os juros reais continuem baixos nos Estados Unidos, a inflação persistente tem afetado o valor do dólar em relação a outras moedas no mundo, contribuindo para o ambiente desinflacionário das economias emergentes.

No Brasil, temos observado um mercado de trabalho bastante resiliente, queda na inflação, especialmente nos combustíveis e na alimentação – onde as famílias de renda mais baixa comprometem maior parcela da cesta de consumo, e uma perspectiva eminente de queda de juros, dando condições para uma expressiva melhora do balanço das famílias e consequente incremento de propensão ao consumo. Portanto, acreditamos que o crescimento econômico potencial possa ser maior do que o projetado e incorporado nos preços.

Neste trimestre, observamos um intenso movimento das empresas mais endividadas para injetarem capital e ajustarem seus balanços, acelerando a geração de caixa. Considerando o volume de operações e a demanda, a melhora do humor do mercado de capitais é notória.

Alongando o prazo de análise, vemos que os ativos na bolsa, mesmo após a boa performance deste trimestre, seguem com taxa de retornos atraentes para 2024. Isso considerando a queda de juros implícita na curva e que não teremos uma recessão à vista.

Em resumo, estamos em um momento de mudança de ciclo global. Os mercados emergentes, que sofreram por vários anos com um dólar forte e intensa competição por capital pela China, começa a assistir uma reversão desse processo. A menos que ocorra um grande choque externo ou uma guinada populista mais radical por parte de nossos governantes, acreditamos que se inicia um ciclo virtuoso bastante favorável para os mercados emergentes e, por consequência, para o Brasil.

A rentabilidade obtida no passado não representa garantia de resultados futuros. Os investimentos em fundos não são garantidos pelo administrador ou por qualquer mecanismo de seguro ou, ainda, pelo fundo garantidor de crédito. Para maiores informações acessar o site www.moat.com.br 

 

Atenciosamente,

Moat Capital

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